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mala voadora

Produção Caseira

30 de novembro às 15:30 . Produção Caseira . ação de Isaque Pinheiro . mala voadora

A primeira coisa que tenho vontade de dizer sobre o Isaque Pinheiro é que gosto dele e de tudo o que ele faz, e que acho que ele é um artista - o que não é tão comum no meio artístico quanto seria de esperar. Mas escrevo para dizer também outras coisas.

As obras que Isaque Pinheiro tem vindo a produzir podem ser genericamente inscritas na categoria escultura. A sua competência como escultor é de resto notória. É um virtuoso. Tem uma relação quase clássica com os materiais, que domina perfeitamente, contra a sua natureza: o mármore adquire formas próprias do látex, de folhas de papel, de réguas de persianas de plástico, de uma casca de banana; mármore que é um bife; o bronze parece fio; a chapa parece tecido engomoda - tudo peças em que se juntam essa possibilidade de dominar os materiais para mimetizar as formas próprias de outros, que é a base de uma grande parte da "História da Escultura", e, por outro lado, uma ironia que pode ser associada a um termo próprio do jargão pós-moderno: simulacro. As esculturas são um jogo de representação próximo do trompe l’oeil. Este talvez seja um dos primeiros aspetos visíveis da obra de Isaque Pinheiro e, certamente, um dos que lhe permite oferecer, a quem vê as suas peças, um nível fácil de empatia. Há obras de arte às quais é difícil chegar; não será o caso destas. Este “jogo com a imagem que as coisas têm” deverá ser considerado obra a obra, designadamente para que se entenda o alcance da orientação da sua invariável (e invariavelmente inteligente) ironia, que por vezes se completa com jogos também de palavras. Por exemplo, a palavra “leve” escrita numa placa de pedra abandonada num espaço público é simultaneamente um adjetivo mentiroso (como o corpo de quem efetivamente a levar poderá experienciar) e conjugação do imperativo de uma “arte grátis”. O espectador pode ser implicado; a obra pode perder-se num circuito público imprevisível; texturas naturais ocupam o lugar de imagens digitais; a obediência aos veios da madeira impõe-se ao desenho dos objetos representados, deformando-os; armaduras metálicas ou roupas de couro evidenciam a dimensão fetichista das esculturas que protegem ou vestem.

Em vários trabalhos mais recentes, Isaque Pinheiro tem-se aproximado do universo da designada “crítica institucional”, implicando as condições laborais do trabalho artístico no conteúdo das obras. Uma escultura que é o seu próprio recibo verde. Títulos de propriedade do Monopólio ampliados e desnaturalizados em mármore, sob o título Vendo País para Comprar Casa. E agora dinheiro falso. Uma mala artesanalmente pintada com o padrão característico da Louis Vuitton – o mais vulgar símbolo do luxo – é afinal a mala de um vendedor ambulante de grandes notas falsas, meticulosamente arrumadas no seu interior, juntamente com os moldes de impressão. Uma mala pronta para produzir notas falsas em qualquer sítio. Um falsificador nómada. Um artista do dinheiro. Notas transmutadas em arte, com uma textura de impressão que acusa a natureza artesanal da produção. Produção caseira.

Na tarde de dia 30 de novembro, Isaque Pinheiro estará na mala voaodra, na Rua do Almada, a produzir mais notas falsas, notas de um valor cada vez mais alto. Assim culmina um ano em que a mala voadora se dedicou ao dinheiro: com esta oficina de falsificação e com um encontro sobre dinheiro organizado por António Guerreiro.

 

 

 

Ficha

Isaque Pinheiro nasceu em Lisboa, em 1972. Vive e trabalha no Porto. Conta com exposições individuais no Paço Imperial no Rio de Janeiro e em galerias como Caroline Pagès (Lisboa), Mário Sequeira (Braga), Presença (Porto), Esther Montoriol (Barcelona), Laura Marsiaj (Rio de Janeiro), Moura Marsiaj (São Paulo) e Ybakatu (Curitiba), destacam-se também participações em exposições coletivas no Stenersen Museum (Oslo), Centro Galego de Arte Contemporânea (Santiago de Compostela) e Caixa Cultural (Rio de Janeiro). Está representado na Coleção de Arte Fundação EDP | MAAT (Lisboa), Fundação PLMJ, Museu da Bienal de Cerveira, Fundação Caixanova (Espanha), Centro Galego de Arte Contemporânea (Santiago de Compostela) e Fundação Edson Queiroz (Fortaleza, Brasil), entre outras.

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