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mala voadora

Corpo Brasileiro . programação da Hosek Contemporary na mala voadora

de 23 de outubro a 8 de novembro . Corpo Brasileiro - mostra de arte, com trabalhos de Élle de Bernardini, Andressa Cantergiani, Clara de Cápua, Janaina Carrer, Fabiana Faleiros, Julha Franz, Pedro Galiza, Raphael Jacques, Gabriel Pessoto, Túlio Rosa, Yuri Tuma, Fabiana Vinagre e curadoria de Petr Hosek . mala voadora

Corpo Brasileiro, mostra coletiva de doze artistas, composta por onze video performances ou registos das mesmas, tem como foco a aparência do corpo e da poesia na arte contemporânea brasileira. Cada obra representa uma abordagem diferente às dificuldades que o brasileiro tem que enfrentar no contexto da realidade política e social insegura deste estado federal sul-americano hoje em dia. Recentemente, as instituições estatais brasileiras tornaram-se mais 'cuidadosas' e 'conscientes' da linha política de extrema-direita do presidente do país e, tendo os curadores dessas instituições culturais de escolher que tipo de trabalho expôr, especialmente no teatro e na performance, preferem não escolher projetos com nudez, presença queer ou trans e caráter político. Nestas condições, não é surpreendente que São Paulo tenha já organizado um festival de arte 'banida'. Quando a autocensura invade a mente do artista para sobreviver e ganhar a vida, o espírito de criação livre é morto. A arte torna-se uma caricatura e a honestidade desaparece, da mesma forma que o medo entra.

A necessidade de questionar a liberdade de criação artística tem estado recentemente ligada ao facto da administração de Bolsonaro não estar, na verdade, interessada em censurar, mas antes em 'curar' a arte, de acordo com as suas próprias crenças religiosas (como apontou Sophie Foggin). Mas a luta do corpo brasileiro, sobretudo na seleção de obras aqui apresentadas, aprofundou-se no passado, principalmente em 2013, ano em que vídeos das manifestações contra o governo começaram a surgir no YouTube.

Túlio Rosa, cuja investigação está profundamente ligada ao impacto da violência mediática nos nossos corpos, procura responder a questões inquietantes relacionadas com a nossa luta pela sobrevivência: "Como construir estratégias para gerir a violência a que os nossos corpos são constantemente submetidos? Como falar sobre violência? Quais são os efeitos que as imagens de violência têm no corpo?". Um conjunto de dois vídeos, Experiments for a non submissive body - X4 - Lado A/ Lado B, foi criado e publicado em 2016. A verdadeira história por trás das imagens tem origem numa situação que o próprio Túlio experienciou: o assalto a um restaurante francês, em Copacabana, onde jantava com amigos. Quatro homens entraram no local com armas e granadas. "Eles nos obrigaram a colocar as mãos sobre a mesa e olhar o espaço entre eles, enquanto roubavam tudo. Foi um ataque longo, mais longo do que é normal. Tive uma sensação muito forte de que tudo estava acontecendo atrás de mim e a única coisa que podia fazer era olhar para a mesa enquanto tudo estava acontecendo. Foi uma forte sensação de impotência. Lembro-me de ter pensado em imagens de guerra, pessoas tentando jantar enquanto bombas caíam do lado de fora". O primeiro vídeo mostra como o corpo pode mover-se ou posicionar-se dentro de um determinado quadro - sentado e com as mãos na mesa. Imagens embaçadas das manifestações continuam a aparecer no fundo, como fumo. O segundo vídeo mostra a mesma cena mas, desta vez, explora a possibilidade de uma coreografia criada apenas pelas mãos, inspirada nos gestos das imagens de violência nos media.

Janaina Carrer olha para dentro de si mesma na performance Expurgação. A obra, criada em 2014, tem um cenário definido: escrever durante uma hora, sem parar, na máquina de escrever, sem hipótese de apagar ou arquivar e sem pausas para pensar. Rasgar o que foi escrito. Através da performance, Janaina consegue iniciar o processo de matar resquícios antigos e articular os sentimentos de castração, os desejos ocultos e os medos enraizados. Tudo tem de ser rostos numa hora sem interrupções. Essa desaceleração dos pensamentos e transformação dos mesmos em palavras reais, sem regresso, sem borracha, sem hipótese de revisão, inicia um processo tenso e doloroso. Naturalmente, as lágrimas caem. "Como posso ter pensado nisso por tanto tempo? É hora de conquistar a terra e transformar": é como Janaina Carrer descreve o seu trabalho. 

Outro artista que olha para dentro de si é Pedro Galiza, com a obra Extrato Íntimo, de 2018. Apresentado originalmente durante uma residência em Ubatuba, São Paulo, Extrato Íntimo é um clip, uma carta, um poema, um desfile, um espetáculo, uma ação, um distúrbio, uma destruição ou uma experiência dedicada a toda a gente que acredita e pratica a vida, com autonomia.

Raphael Jacques, também natural de São Paulo, é retratado numa curta-metragem de 2018 chamada Alma. O universo underground da maior metrópole do hemisfério sul está a ser ocupada por Alma Negrot, performer que faz parte de uma nova geração de drag queers, que surgiu e cresce atualmente no Brasil. Quem dá vida a Alma Negrot é Raphael Jacques, uma das figuras deste movimento, que se materializa na necessidade histórica de um país que mata mais membros da comunidade LGBT do que qualquer outro, em todo o mundo. Durante a noite, Raphael transforma-se e improvisa uma provocação visual através do seu próprio corpo. A maquilhagem exagerada serve para revelar o grito de um movimento que vê na estética um lugar de contestação. As pestanas de papel, os cabos e os sacos de plásticos reaproveitam o lixo para que a cidade veja o melhor e pior de si mesma. 

A terceira artista paulista é Fabiana Faleiros, artista e poetisa, também conhecida como Lady Incentivo. Sob esse pseudónimo, assume o papel de cantora e persona pública que satiriza a "Lei Incentivo", lei brasileira que permite ao setor privado dar baixa de impostos sobre o dinheiro investido na cultura. O vídeo de que é a autora mostra a gravação de um projeto seu para a 10ª Bienal de Berlim, em 2018. Fabiana Faleiros ocupou o Bob's Pogo Bar, situado no subsolo do KW Institute for Contemporary Art - espaço e bairro marcado por processos urbanos semelhantes aos testemunhados no coração de São Paulo. MasturBar (2015-2018) era um bar itinerante que oferecia um programa próprio, do qual faziam parte palestras, workshops e uma coleção de objetos relacionados com o tema da masturbação feminina. O nome do bar deve-se ao verbo masturbar, mas é também o título de uma música - e videoclip - de Lady Incentivo, inspirada na canção I Feel Love, de Donna Summer. Neste projeto, Fabiana Faleiros propõe uma exploração audiovisual das diversas performances que se praticam com os dedos, observando as histórias por trás dos gestos que as ligam a nós, às máquinas e aos objetos de desejo.

A obra Cartographic Poetry (2018), da dupla de artistas Fabiana Vinagre e Yuri Tuma, é baseada na poesia concreta, movimento que se espalhou no Brasil entre os anos 50 e 60. As suas performances almejam romper com os usos comuns da linguagem, aproximando a leitura e a escrita do corpo e do espaço. Esses trabalhos surgiram da necessidade de questionar o uso da linguagem no contexto neoliberal, onde se pode dizer que mesmo a linguagem e respetivos códigos passaram por um processo de gentrificação e invisibilidade. Fazer da poesia uma cartografia e, com ela, habitar o espaço urbano desafia triplamente os regulamentos segundo os quais se coloca o corpo na performatividade, o território noutros limites possíveis e a palavra na sua forma mais aberta. 

Andressa Cantergiani e Julha Franz são duas artistas da cena em crescimento de Porto Alegre. Andressa Cantergiani assumiu a curadoria do Museu Militar de Porto Alegre, em 2018, com um conjunto de apresentações que envolviam tarot, nudez, palavras provocativas e bandeiras LGBT, entre outros. Num ambiente cercado por carros militares, armas, tanques e servos, Cantergiani cria e a aponta alternativas para a guerra e para os símbolos fascistas. Já a obra de Julha Franz, em 2019, desafia a lei brasileira e desafia a sacralidade do Hino Nacional Brasileiro. "Ninguém canta o hino nacional sozinho. Dearest Nation denuncia a americanização na América Latina (especialmente no Brasil) e brinca com as noções de pátria e identidade. Traduzi o hino nacional brasileiro para inglês e deixei a revolta me invadir enquanto eu cantava", explica. 

Com Corpo Brasileiro como um todo, afirmamos que somos contra a censura, a violência e qualquer influência política na arte e no campo criativa em geral.

(texto de Petr Hosek)

© Imagem: Juan J. Yuste Del Valle (Tulio Rosa - Experiments for a non submissive body - X4 - Lado A/ Lado B)

 

Ficha

trabalhos de Élle de Bernardini, Andressa Cantergiani, Clara de Cápua, Janaina Carrer, Fabiana Faleiros, Julha Franz, Pedro Galiza, Raphael Jacques, Gabriel Pessoto, Túlio Rosa, Yuri Tuma, Fabiana Vinagre . curadoria de Petr Hosek . agradecimentos Linda Toivio, Matheus Gumerato, Henrique Menezes . parceria mala voadora e Hosek Contemporary . apoio Goethe Institut . A mala voadora é uma estrutura financiada pelo Governo de Portugal/Direcção-Geral das Artes, e associada d'O Espaço do Tempo . HOME SWAP tem o apoio da Câmara Municipal do Porto no âmbito do Criatório

Agenda

noite de abertura:
23 de outubro, das 19:00 às 23:00

período de exposição:
de 23 de outubro a 8 de novembro
de quarta a domingo, 14:00 - 18:00