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mala voadora

Rabbits

“Numa cidade sem nome amaldiçoada por chuva contínua... vivem três coelhos com um terrível mistério.” - foi com esta frase que David Lynch apresentou ao público a sua série Rabbits (2002). Aqui, em 2017 na mala voadora, propõe-se uma recriação da série ao vivo, transpondo-se o universo cinematográfico para o contexto cénico. Não se trata tanto de uma ideia de apropriação ou emulação, mas antes na de recriar um objecto alterando-lhe o dispositivo (criando, assim, um novo objecto com argumento e discurso próprios). Mantêm-se os códigos sitcom (risos e os aplausos), de modo a que estes passem a servir não tanto um olhar alternativo sobre este tipo de entertenimento televisivo, mas uma subversão do papel do espectador, que, uma vez presente na sala de espectáculo, se vê estéril e quase incapaz de produzir qualquer (re)acção,ou de obedecer a qualquer convenção – por estas já estarem ironicamente presentes no espaço da performance. Por outro lado, substituem-se os fatos de coelho de corpo completo por máscaras-rosto, afastando os corpos da ideia de coelhos-que-se-parecem-com-pessoas (coelhos humanóides) e aproximando-os do espectro de corpos-mascarados, num qualquer jogo carnavalesco – corpos com rostos petrificados e monstruosos, como no teatro grego. Nesta performance, é impossível saber do que se trata toda a acção, mesmo enquanto a vemos desenrolar diante dos nossos olhos. O espectador não pode sequer prever o que vai acontecer, pois não há modo de compreender sequer o que aconteceu até ali. Ele não sabe se irá ver um monstro, um corpo, um assassino, uma brutalidade. Ele não sabe nada. Tem três coelhos à sua frente e as coisas acontecem.

Ficha Técnica

direção e adaptação Pedro Baptista . interpretação Diana de Sousa, Margarida Bakker e Pedro Baptista . classificação etária M/12  . duração aproximada 50 min.