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mala voadora

Expatriados

EXPATRIADOS é o nome mais que provisório para o nomadismo involuntário em que nos apanham todos os dias: emigrar porque o país está em crise, viajar continuamente para suprir a demanda global de trabalho imaterial, viajar continuamente para obter o salário que não conseguiríamos num só lugar, viver entre dois países para usufruir de diferentes condições de trabalho ou de direitos sociais, correr o globo para participar em mega-eventos ou correr o globo para fugir de mega-eventos. No dia da Mãe até Passos Coelho teria exclamado: “não se esqueçam de ligar o skype para falarem com as vossas mães”.

Mas existe um outro nomadismo em que não somos constrangidos a partir e, no entanto, o movimento é sempre reiterado. Esse nomadismo “existencial”, é algo que nos põe em viagem contínua, viagem necessária para desfazer e escapar aos códigos de um sedentarismo também ele existencial. Como diria Deleuze esse nómada não é forçosamente alguém que se movimenta, não se muda à maneira dos migrantes e as suas viagens são em intensidade. Este nomadismo possui um movimento vital que não se confunde com as migrações forçadas de outros nomadismos.

EXPATRIADOS é também o nome que demos a este programa integrado no FITEI 2015, onde propomos fazer um mapeamento dos artistas portugueses espalhados pelo aqui-ali-acolá do globo, suas motivações para emigrarem, suas novas línguas luso-híbrido-coisas, suas novas perguntas a respeito do que é uma “pátria” ou o que pode ser entendido enquanto tal. Com curadoria de Gonçalo Amorim e assistência curatorial de Marta Lança e Rita Natálio, este programa convida um grupo de artistas “globais” a residirem durante 10 dias em diferentes espaços do Porto, onde poderão colaborar, apresentar os seus trabalhos e propor estratégias para pensar essa noção de expatriamento permanente e paradoxal que as novas viagens e epidemias de crise do séc.XXI nos impõem.

- Programa - 

Ana Mendes . Self-portrait . 09 junho às 21h30

Self-portrait é uma peça de teatro acerca da minha identidade. Ao longo dos anos, coleccionei os meus dados pessoais (exames médicos, análises, raios—X) e questionei-me acerca do papel que a hereditariedade tem na nossa vida. Podia ser um questionário de polícia, um interrogatório de saúde ou um manifesto contra todos os questionários que temos de preencher ao longo da nossa vida. Mas não é. É apenas um retracto. Se calhar automático.

 

Rita Natálio e Joana Levi . Museu Encantador . residência artística  09-19 junho . apresentação 19 junho às 18h

O que é encantamento? Existiria alguma relação entre encantamento e cultura? O que seria um museu do ‘“encantamento cultural” entre Brasil e Portugal? “Museu Encantador”, organizado pela performer e pesquisadora portuguesa Rita Natálio e a encenadora carioca Joana Levi, é um projeto em curso desde 2012 onde já participaram vários artistas portugueses e brasileiros, tendo sido apresentado a sua versão completa no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 2014. Farão uma residência de pesquisa a partir de fragmentos desta pesquisa mais alargada onde se habitam e desmontam os clichets da memória colonial. Procuram refletir sobre a relação entre encanto e memória, abraçar essa estranha mistura de vivo e morto que os museus apresentam, pensando os primeiros encontros entre índios e colonizadores. Irão apresentar os resultados da residência e mostrar o filme "Ritual de Casamento" que integra a coleção Museu Encantador. Neste vídeo, duas mulheres sem roupas reavivam uma espécie de história da colonização em quadros, contada através de uma sucessão de encontros onde se trocam, negociam, usurpam ou misturam os poucos objetos que têm disponíveis entre cocar de índio, chapéu de colonizador, ananás, vinho, flecha, etc. Numa simulação dos primeiros encontros entre colonizador e índio, em que a relação de troca e imitação era intrínseca ao encontro, neste vídeo os objetos transitam de corpo a corpo e, ao invés de construírem padrões fixos (do colonizador e do colonizado), prolifera a mistura, uma força-variação dos clichets.

 

Jorge Gonçalves . A suspended gesture . 13-14 junho às 18h

 O projecto debruça-se sobre o texto Ájax de Sófocles para investigar processos linguísticos de práticas de indexação, interpelação e focalização, em específico, no modo como o performer, a partir da exploração da relação entre linguagem e movimento, desenvolve estratégias de interpelação e intervenção com o público. Em palco, o performer está com o público em redor de si e vai desdobrando dois modos de ficcionalizar, um pela instalação do espaço da narrativa no espaço teatral e pela atribuição de personagens a alguns elementos do público, outro pela redução do texto a palavras deícticas de forma a que o público estabeleça a sua própria ficção sobre os acontecimentos. Desta forma, o performer orquestra uma coreografia de gestos, poses e palavras num espaço comum com a audiência em que toda a acção irá desenvolver-se a partir das relações produzidas através de operações como testemunhar, narrar, ser parte de, interpretar, memorizar, interpelar e atribuição de sentido.

 

Sílvia Pereira . OMNIADVERSUS self-actualising the subject  . 15-17 junho das 15h às 19h30

É um projecto teórico, visual e performativo, que explora o tema da construção da identidade. Observando e questionando processos de subjectivação contemporânea, propõe uma actualização da autoria, numa prática conceptual imersiva, múltipla e impessoal. Consiste na personalização de heterónimos, integrados em meios culturais e sociais específicos, que interagem num determinado circuito de vivências e descrevem a sua existência como personas vivas, em função da experiência de subjectivação à qual estão sujeitos, no âmbito das artes visuais e performativas. Na sequência da recente exposição em Tóquio - Om.0 [ omniadversus momentum 0 ], um momento da investigação artística OMNIADVERSUS self-actualising the subject, serão apresentadas algumas peças que os heterónimos Darr Tah Lei e Jun O desenvolveram, sob o devir experienciado por cada uma em atividades artísticas no Japão, bem como uma síntese dessa experiência em peças-pesquisa que funcionam como impulsionadores para se discutir a investigação artística. Os três grupos de trabalho serão apresentados em diferentes espaços da mala voadora. Sílvia Pereira, a maestra do projecto, deambulará pelas zonas de exposição, assumindo em cada uma a identidade do heterónimo associado, num on-off presencial, próprio da múltipla experiência heteronímica no mesmo corpo.

 

Marta Lança  . Abroad, Onde fica? . 17 junho às 15h

Partindo das experiências artísticas em contextos de criação e deslocação diversificados, vamos confrontar pontos de vista sobre o que realmente se constrói nestas vivências entre um lugar de origem e de destino. O que se aprende e desaprende lá fora? Que estímulos e condições de produção norteiam as várias propostas? Porque cresce o cerco à cultura em Portugal? Como podemos criar posturas resistentes ao atavismo e desanimo? Nesta conversa conheceremos algumas estratégias destes “expatriados”.

 

Nuno Lucas . I Could Write a Song . 17 junho às 18h

No início deste ano, estriei o solo "I COULD WRITE A SONG" no contexto do Festival Artdanthé - Théâtre de Vanves (França). Após treze anos de intensa colaboração e experimentação em diferentes formatosde trabalho, senti a necessidade de me recentrar e de me propor um novo desafio, retornando ao formato do solo. É uma investigação sobre o conceito de identidade no sentido mais amplo, que visadesmontar os elementos que utilizamos para construir uma identidade. Quais são os mecanismos performativos, formais, linguísticos e corporais que participam àconstrução de uma identidade?

 

Agenda

Preço:  bilhetes simples 3 euros . livre-trânsito para todo o programa EXPATRIADOS 15 euros

reservas e informações: comunicacao@fitei.com 

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Apresentação do programa Expatriados . 09 junho às 21h

Self-portrait de Ana Mendes . 09 junho às 21h30

Residência artística Museu Encantador por Rita Natálio e Joana Levi . 09-19 junho

Voyage sur place de Marianne Baillot . 11-12 junho às 18h

A suspended gesture de Jorge Gonçalves . 13-14 junho às 18h

OMNIADVERSUS self-actualising the subject de Sílvia Pereira . 15-17 junho das 15h às 19h30

Abroad, onde fica? de Marta Lança . 17 junho às 15h

I could write a song de Nuno Lucas . 17 junho às 18h

Museu Encantador de Rita Natálio e Joana Levi . 19 junho às 18h